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A Arte de Fazer as Perguntas Certas Numa Negociação

Há uma competência negocial que raramente aparece nos manuais com o destaque que merece: saber perguntar.

A maior parte da atenção vai para os argumentos, para a preparação, para as táticas de resposta. Mas algumas das negociações mais bem conduzidas que já observei ou estudei tinham uma coisa em comum: a pessoa que estava a conduzir fazia perguntas extraordinariamente boas.

Não perguntas para preencher silêncio. Perguntas que abriam espaço, que revelavam informação, que reenquadravam a conversa, que criavam movimento onde havia bloqueio.

Perguntar bem é uma arte. E como toda a arte, tem técnica por baixo.

Perguntar é recolher informação que não tens

O ponto de partida é simples: entras numa negociação com informação incompleta sobre a outra parte. Sabes o que ela diz que quer. Não sabes necessariamente o que ela precisa, o que a preocupa, o que considera inegociável, o que valoriza mais do que deixa transparecer.

As perguntas certas preenchem estas lacunas. E quanto mais completo for o teu mapa dos interesses e das preocupações da outra parte, mais eficaz é a tua estratégia negocial.

Isto parece óbvio quando dito desta forma. Mas na prática, muitas negociadoras chegam à mesa focadas em apresentar os seus próprios argumentos e passam a maior parte do tempo a falar em vez de a ouvir. As perguntas ficam para os momentos de hesitação, improvisadas, sem intenção clara.

Perguntar com intenção é diferente. É entrar na negociação com perguntas preparadas, com clareza sobre o que precisas de perceber, e com disciplina para criar espaço para as respostas antes de avançares com os teus argumentos.

A diferença entre perguntas abertas e fechadas

A distinção mais básica em qualquer conversa negocial é entre perguntas abertas e perguntas fechadas, e saber quando usar cada uma faz uma diferença enorme.

As perguntas fechadas têm respostas binárias ou muito curtas. Confirmam factos, verificam entendimentos, fecham pontos. “Está de acordo com este prazo?” “Isto cobre as tuas preocupações sobre governance?” São úteis para confirmar e para fechar, mas criam pouco espaço para que a outra parte revele algo que não estavas à espera.

As perguntas abertas convidam a uma resposta mais longa e mais reveladora. “O que é que mais te preocupa nesta estrutura?” “Como é que vês esta parceria a funcionar daqui a dois anos?” “O que é que tornaria este acordo verdadeiramente bom para o teu lado?” Estas perguntas criam espaço. E nesse espaço, a outra parte muitas vezes diz coisas que mudam completamente o teu entendimento da situação.

A regra geral é usar perguntas abertas para explorar e perguntas fechadas para confirmar. Mas há uma nuance importante: perguntas abertas só funcionam se estiveres genuinamente disponível para ouvir a resposta, por mais longa ou inesperada que seja. Se fizeres uma pergunta aberta e interromperes a resposta ao fim de 30 segundos porque querias mesmo era dizer o teu argumento, a pergunta não serviu nenhum propósito.

As perguntas que revelam interesses

A distinção entre posições e interesses é um dos conceitos mais importantes em negociação. A posição é o que cada parte diz que quer. O interesse é o porquê. E os melhores acordos quase sempre resultam de uma exploração dos interesses, não de uma batalha entre posições.

As perguntas que revelam interesses têm uma estrutura específica. Em vez de responder à posição da outra parte com a tua própria posição, perguntas sobre o porquê: “Podes ajudar-me a perceber o que está por detrás desta posição?” “Que preocupação específica é que esta cláusula está a tentar proteger?” “Se este ponto não fosse um problema, o que é que mudaria para ti?”

Estas perguntas muitas vezes revelam que o que parecia um impasse não é. Que há formas de responder ao interesse subjacente sem cederes exactamente o que a posição da outra parte estava a exigir.

Um exemplo concreto: um investidor insiste em ter um lugar no conselho de administração. A posição é clara e pode parecer inegociável. Mas a pergunta “que tipo de visibilidade ou envolvimento é que esse lugar no conselho te dá que é importante para ti?” pode revelar que o que ele realmente precisa é de acesso regular a informação financeira e a conversas estratégicas, não necessariamente de um assento formal com poder de voto. Isso abre possibilidades que a posição inicial fechava completamente.

As perguntas que criam movimento em impasses

Quando uma negociação bloqueia, a tentação é repetir os argumentos com mais convicção. Raramente resulta. O que cria movimento quase sempre é uma pergunta que muda o ângulo da conversa.

“O que é que tornaria possível avançar neste ponto?” é uma das perguntas mais poderosas que existe num impasse. Não está a pedir à outra parte que ceda. Está a perguntar o que seria necessário para a conversa poder continuar. A resposta muitas vezes revela um caminho que nenhuma das partes tinha considerado.

“Se eu conseguisse garantir X, isso mudaria a tua posição sobre Y?” é outra pergunta que cria movimento. Introduz uma variável nova na conversa, testa uma hipótese sem a comprometer, e convida a outra parte a pensar de forma criativa em vez de manter uma posição rígida.

“Há algo que eu não esteja a perceber sobre a tua perspetiva neste ponto?” é uma pergunta que tem um efeito quase imediato em conversas bloqueadas. Reconhece que pode haver informação que te falta, baixa a temperatura da conversa, e convida a outra parte a explicar em vez de defender.

As perguntas que confirmas o entendimento

Uma fonte enorme de conflito em negociações, e em acordos que já foram assinados, é a diferença entre o que cada parte disse e o que a outra parte entendeu.

As perguntas de confirmação são a forma de fechar estas lacunas antes que se tornem problemas. “Quero confirmar que entendi corretamente: o que estás a propor é...” “Quando dizes X, estás a referir-te a...” “Para garantir que estamos alinhados, o que ficou acordado é...”

Estas perguntas podem parecer redundantes no momento. Na prática, são uma das formas mais eficazes de evitar desentendimentos que custam muito mais a resolver depois do acordo estar assinado do que antes.

As perguntas que não deves fazer

Há perguntas que parecem úteis mas que criam mais problemas do que resolvem.

As perguntas retóricas disfarçadas de questões genuínas. “Não achas que esta avaliação é completamente desrazoável?” não é uma pergunta. É uma afirmação com um ponto de interrogação no final, e a outra parte vai lê-la exatamente assim.

As perguntas que presumem a resposta. “Então concordas que o mercado justifica esta avaliação?” coloca a outra parte numa posição defensiva antes de ela ter dito qualquer coisa.

As perguntas em série sem espaço para resposta. Quando fazes três perguntas seguidas sem deixar a outra parte responder, estás na verdade a não perguntar nada. Estás a falar com pontos de interrogação.

E as perguntas feitas por obrigação social, aquelas que fazes porque sentes que deves mostrar interesse, mas onde não estás genuinamente disponível para ouvir a resposta. A outra parte percebe a diferença. E quando percebe, fecha-se.

Ouvir é a outra metade da pergunta

Uma pergunta bem feita não termina quando acabas de a formular. Termina quando ouves completamente a resposta.

Ouvir completamente significa não interromper. Significa não estar a preparar o teu próximo argumento enquanto a outra parte ainda está a falar. Significa fazer silêncio quando a resposta termina, em vez de saltares imediatamente para a tua próxima ideia.

A maioria das pessoas ouve para responder. As negociadoras mais eficazes ouvem para perceber. É uma diferença subtil mas tem consequências enormes na qualidade da informação que recolhes e na qualidade dos acordos que fechas.

Se praticares uma única coisa depois de leres este artigo, que seja esta: na próxima negociação, conta até três depois de a outra parte terminar de falar antes de começares a responder. Esses três segundos vão revelar mais do que qualquer pergunta que possas fazer.

Uma última pergunta

Quando foi a última vez que entraste numa negociação com perguntas preparadas com tanto cuidado quanto preparaste os teus argumentos?

Se a resposta for “nunca” ou “raramente”, esse é o trabalho que tens de fazer antes da próxima conversa importante.

As perguntas certas no momento certo valem muito mais do que o argumento mais bem construído do mundo.