A negociadora - Blog

O Que Fazer Quando a Negociação Corre Mal

Há uma coisa que ninguém gosta de admitir sobre negociação: às vezes corre mal. Mesmo quando te preparaste. Mesmo quando fizeste tudo certo. Mesmo quando a proposta era boa e as intenções eram genuínas.

E quando isso acontece, o instinto mais comum é ou entrar em modo de salvação desesperada, aceitando condições que não querias só para não perder o acordo, ou desaparecer da conversa e fingir que o impasse não existe.

Nenhuma das duas funciona.

Este artigo é sobre o que fazer em vez disso.

 

Primeiro: distingue impasse de fim

Quando uma negociação entra em crise, a primeira coisa que precisas de fazer é perceber exatamente onde estás. Porque há uma diferença enorme entre uma negociação que chegou a um impasse e uma negociação que chegou ao fim, e confundir as duas tem custos muito diferentes.

Um impasse é uma paragem. As partes não conseguem avançar porque há um ponto de desacordo que, naquele momento, parece intransponível. Mas os impasses têm solução. Precisam de tempo, de criatividade, ou de uma mudança de perspetiva, mas têm solução.

O fim de uma negociação é outra coisa. É quando os interesses das partes são genuinamente incompatíveis, quando os termos mínimos aceitáveis de cada lado não se sobrepõem, quando continuar a negociar seria desperdiçar recursos de ambas as partes.

Saber distinguir os dois é fundamental porque a resposta a cada um é completamente diferente. Um impasse pede paciência e criatividade. O fim de uma negociação pede clareza e a coragem de sair.

 

Quando o problema é o impasse

Os impasses têm quase sempre a mesma origem: as partes ficaram presas nas posições e esqueceram os interesses.

A posição é o que cada parte diz que quer. O interesse é o porquê. E quando duas posições se contradizem diretamente, a negociação paralisa. Mas quando se exploram os interesses por baixo dessas posições, quase sempre há mais espaço do que parecia.

Um exemplo simples: o investidor quer 30% da empresa e tu não queres ceder mais de 20%. As posições estão a 10 pontos percentuais de distância e parecem irreconciliáveis. Mas se explorares o porquê de cada posição, podes descobrir que o investidor precisa de 30% por razões de governance, não de retorno financeiro. E que há outras formas de lhe dar o controlo que precisa sem cederes a percentagem que não podes ceder.

Quando estás num impasse, as perguntas que te devem guiar são estas: o que é que a outra parte está realmente a tentar proteger ou garantir com esta posição? Há outras formas de garantir isso que eu não considerei? Há variáveis que ainda não entrámos na conversa que poderiam criar valor para ambos os lados?

Mudar o ângulo da conversa, trazer novas variáveis para a mesa, ou simplesmente fazer uma pausa e regressar mais tarde com ideias novas, são recursos que funcionam. O impasse raramente é o sinal de que o acordo é impossível. É quase sempre o sinal de que a conversa precisa de um novo ponto de entrada.

 

A pausa como ferramenta estratégica

Uma das coisas mais difíceis de fazer quando uma negociação está tensa é parar. O instinto diz que parar é perder terreno, que o silêncio vai ser interpretado como fraqueza, que precisas de continuar a empurrar para não perderes o momento.

Mas a pausa é uma das ferramentas mais poderosas que tens disponíveis.

Quando as emoções estão altas, a capacidade de pensar com clareza diminui. Decisões tomadas sob tensão são quase sempre piores do que decisões tomadas com algum distanciamento. Uma pausa, seja de alguns minutos numa reunião difícil ou de alguns dias entre sessões de negociação, permite que ambas as partes reorganizem as ideias, baixem a guarda, e regressem com mais abertura.

Há uma forma de propor a pausa que funciona bem e que não soa a recuo: "Acho que chegámos a um ponto onde precisamos de tempo para pensar melhor sobre o que cada um está realmente a precisar. Podemos regressar a isto na próxima semana com ideias novas?" Esta formulação não fecha o acordo, não abandona a conversa, mas cria o espaço necessário para que ela evolua.

 

Quando trazer alguém de fora

Há situações em que o impasse é genuíno e a pausa não chega. As partes já exploraram os interesses, já trouxeram novas variáveis, já tentaram ângulos diferentes, e mesmo assim a conversa não avança.

Nestes casos, trazer alguém de fora pode fazer toda a diferença.

Não necessariamente um mediador formal, embora essa seja uma opção válida que abordei num artigo anterior. Pode ser um mentor de confiança de ambas as partes, um consultor que conhece bem o setor, um advogado com experiência em transações semelhantes que consiga ajudar a reformular os termos de uma forma que nenhuma das partes conseguiu sozinha.

A presença de uma terceira pessoa tem um efeito quase imediato nas dinâmicas de uma negociação bloqueada. Remove o confronto direto entre as partes, cria um intermediário para as ideias difíceis, e frequentemente traz perspetivas que nenhuma das partes tinha considerado.

O importante é escolher alguém que ambas as partes respeitem e que não tenha um interesse direto no resultado. Alguém que possa ser genuinamente neutro, ou pelo menos percebido como tal.

 

Quando o acordo não vai acontecer

Às vezes a negociação corre mal porque não devia acontecer. Porque os interesses das partes são genuinamente incompatíveis. Porque a visão é diferente demais. Porque os termos mínimos aceitáveis de cada lado nunca se vão sobrepor.

E quando isso acontece, a coisa mais inteligente que podes fazer é sair. A tempo, com clareza, e sem queimar a relação.

Sair a tempo significa não prolongar uma negociação que não tem futuro só porque já investiste tempo e energia nela. Este é um dos erros mais comuns e tem um nome na psicologia comportamental: sunk cost fallacy. O tempo que já gastaste não é razão para continuar a gastar mais.

Sair com clareza significa ser direta sobre o facto de o acordo não ir avançar, sem deixar a outra parte em dúvida ou à espera. Uma mensagem clara e respeitosa que explique que os termos não se conseguem alinhar é infinitamente melhor do que desaparecer ou deixar o processo morrer por inércia.

Sair sem queimar a relação significa reconhecer que o ecossistema empreendedor português é pequeno e que o investidor de hoje pode ser um parceiro, um cliente, ou uma referência amanhã. A forma como terminas uma negociação é tão importante para a tua reputação quanto a forma como a conduzes.

Uma frase simples funciona bem nestas situações: "Depois de pensar bem, percebo que neste momento os nossos termos não se conseguem alinhar. Fico com uma boa impressão do processo e espero que possamos encontrar outras formas de colaborar no futuro." É honesta, é respeitosa, e fecha a porta sem a trancar.

 

O que aprender de cada negociação que corre mal

Toda a negociação que não chega a acordo tem algo para te ensinar, mas só se fizeres a pergunta certa depois.

A pergunta errada é "o que é que eu fiz de errado?". Esta pergunta leva-te para um espiral de autocrítica que raramente produz insights úteis.

A pergunta certa é "o que é que eu faria de forma diferente da próxima vez?". Esta pergunta é orientada para o futuro, é construtiva, e obriga-te a pensar de forma específica sobre o processo.

Algumas coisas que vale a pena analisar depois de uma negociação difícil: preparaste-te suficientemente bem para os interesses da outra parte? Identificaste o impasse cedo o suficiente ou deixaste que se instalasse? Houve um momento em que podias ter proposto uma pausa e não o fizeste? Os termos que estavas a negociar eram realmente os certos para esta fase da empresa?

Não é análise para criar culpa. É análise para criar competência.

 

Uma nota final

As negociações que correm mal são inevitáveis. Fazem parte do percurso de qualquer empreendedora que está a construir algo com ambição.

O que distingue as negociadoras mais experientes não é não terem negociações difíceis. É saberem o que fazer quando elas aparecem: distinguir impasse de fim, usar a pausa, explorar os interesses por baixo das posições, trazer ajuda quando é necessário, e sair com dignidade quando é a decisão certa.

Cada negociação que corre mal, gerida com consciência, torna a próxima um pouco mais fácil.