A negociadora - Blog

Preparar a Negociação: o truque que (quase) ninguém leva a sério

Sabes aquela sensação de que entraste numa negociação e saíste com menos do que querias... mas não consegues bem explicar porquê? Já me aconteceu. E se estás a ler isto, provavelmente já te aconteceu também.

A verdade é que toda a gente fala da importância da negociação, mas poucos se preparam de verdade. Ficam-se pelo “logo vejo”, “vou com confiança” ou “sei o que quero e isso basta”. Pois… não basta.

Negociar não é uma arte de improviso. É uma dança onde quem ensaia mais, tropeça menos. E, honestamente, quem se prepara melhor, leva vantagem. Sempre.

A preparação não é um extra. É o essencial.

Vamos esclarecer uma coisa: preparar-se para negociar não é fazer uma lista de desejos ou ler três frases motivacionais. É pensar com cabeça, tronco e também emoção.

No fundo, é saber:

  • O que queres;
  • O que não podes aceitar;
  • O que o outro provavelmente quer;
  • E, mais importante, o que o outro não está disposto a perder.

E, se possível, teres um plano B. E um plano C também não faz mal.

A história da laranja (que não é sobre fruta)

Já deves ter ouvido esta: duas irmãs querem a mesma laranja. Discutem. Quem fica com a fruta? Dividem ao meio, certo?

Errado.

Uma queria o sumo. A outra, a casca para um bolo. Se tivessem falado dos interesses reais, tinham ficado as duas satisfeitas.

É aqui que entra a diferença entre negociação distributiva (onde o ganho de um é a perda do outro) e negociação integrativa (onde ambos ganham, sem precisar que o outro perca).

E adivinha? Só descobres isso se te preparares. Se escutares. Se perguntares mais do que afirmares (ou especulares!).

Não prepares só argumentos. Prepara também perguntas.

Um bom negociador não é o que fala melhor. É o que pergunta melhor.

Quanto mais perguntas inteligentes fizeres, mais percebes a ZOPA (a tal zona onde o acordo é possível) e mais claro se torna o teu BATNA (a melhor alternativa se não houver acordo).

E se estes termos te soam a chinês... talvez seja altura de mergulhares um pouco mais no assunto. Há muito mais onde isto veio... 

Podes saber mais no meu livro “Como Negociar na Prática”, disponível aqui: https://www.atlanticbookshop.pt/lisbon-press/como-negociar-na-pratica

E se o melhor acordo for... não chegar a acordo?

Este é o momento em que muita gente engole em seco...

Às vezes, o melhor que podes fazer é sair da mesa. Se a negociação está a ir contra os teus valores, os teus limites ou simplesmente não compensa... então parar também é uma vitória.

Mas para conseguires sair de cabeça erguida, tens de saber de antemão qual é o teu ponto de rutura.

Preparar não é ser um “control freak”. É ter inteligência emocional.

Preparar bem uma negociação não te torna rígido. Pelo contrário. Dá-te margem para ser flexível, porque já sabes de antemão onde estás seguro e onde podes ceder.

E sim, implica refletir sobre ti. Sobre os teus medos. Sobre como costumas reagir. Sobre o que te faz perder o foco ou ficar à defensiva. Negociar bem também é autoconhecimento.

Em resumo?

  • Preparar não é perder tempo, é poupar chatices.
  • Ouves mais, assumes menos.
  • Ficas mais calmo porque já antecipaste o caos.
  • Tens mais hipóteses de chegar a um acordo... e de sair dele com orgulho.

A negociação começa muito antes da conversa. Começa no silêncio da tua reflexão.