A negociadora - Blog

Quando o Diálogo Falha: O Papel da Mediação nas Relações Start-up/Investidor

Há momentos em que duas partes, ambas de boa-fé, chegam a um ponto onde não conseguem avançar sozinhas. O diálogo direto entrincheirou posições. A confiança erosionou. O que começou como uma negociação tornou-se numa batalha de pontos de vista e nenhuma das partes consegue ver para além da sua própria perspetiva.

É precisamente para estes momentos que existe a mediação. E é um recurso que o ecossistema empreendedor ainda utiliza muito menos do que devia.

 O Que É a Mediação — e o Que Não É

A mediação é um processo voluntário de resolução de conflitos no qual uma terceira parte neutra (o mediador) ajuda as partes em conflito a chegar a um acordo. O mediador não decide, não arbitra, não impõe. Facilita a comunicação, ajuda a reencadrar os problemas, identifica interesses subjacentes, e cria condições para que as partes cheguem à sua própria solução.

É diferente da arbitragem, onde um árbitro profere uma decisão vinculativa. É diferente de ir a tribunal, onde um juiz decide. A mediação devolve o poder às partes, com a ajuda de alguém que sabe como gerir a dinâmica do conflito.

O que muitas pessoas não sabem é que a mediação não é apenas um recurso de último recurso. É também um mecanismo preventivo e é muito mais eficaz quando é utilizada cedo, antes que as posições se tornem irreconciliáveis. 

Mediação Informal: Já Estás a Usar Mesmo Sem Saber

Uma das descobertas mais interessantes nos estudos sobre negociação entre start-ups e investidores é que a mediação informal já acontece, até com frequência.

Mentores que facilitam conversas difíceis. Consultores que ajudam a reenquadrar uma proposta. Parceiros de negócio que servem de pontes entre duas partes que pararam de se ouvir. Advogados que vão além do papel técnico e ajudam a gerir a dinâmica relacional.

Estas figuras exercem funções de mediação sem serem chamadas de mediadores. E os empreendedores que recorrem a elas descrevem, consistentemente, como esta intervenção externa ajudou a resgatar o diálogo em momentos de impasse.

A lição aqui é simples: tens provavelmente já na tua rede pessoas que podem desempenhar este papel. A questão é se as ativas de forma intencional, ou se esperas que o conflito se torne maior do que devia.

Quando Recorrer à Mediação Formal

Para conflitos mais sérios, onde há questões contratuais, financeiras ou de governance em jogo, a mediação formal, com um mediador certificado, oferece garantias adicionais:

Neutralidade verificada: Um mediador profissional não tem interesse no resultado e tem formação específica para manter essa neutralidade mesmo sob pressão.

Confidencialidade: O processo de mediação é, em regra, confidencial. O que é dito em sessão não pode ser usado noutros processos. Isto permite conversas mais honestas do que aquelas que aconteceriam na presença de advogados preparados para litigar.

Eficiência: Um processo de mediação bem conduzido pode resolver em dias ou semanas o que levaria meses ou anos num processo judicial e a uma fração do custo, humano e financeiro.

Preservação da relação: Ao contrário do litígio, que por definição cria vencedores e perdedores, a mediação procura soluções que permitam às partes continuar a trabalhar juntas, quando é isso que ambas querem.

 

Como Incluir a Mediação nos Teus Contratos

Uma das melhores formas de garantir que a mediação estará disponível quando for necessária é inclui-la nos contratos de investimento desde o início.

Uma cláusula de mediação pode estabelecer que, antes de qualquer processo de arbitragem ou judicial, as partes se comprometem a tentar resolver o conflito através de mediação. Não é obrigação de chegar a acordo, é obrigação de tentar, de boa-fé, com a ajuda de um terceiro neutro.

Esta cláusula tem vários benefícios práticos:

  • Remove o estigma de "pedir mediação" (parece que estás a admitir fraqueza) porque é um processo previsto desde o início
  • Cria uma estrutura para conflitos que, de outra forma, escalariam por inércia
  • Sinaliza, logo na negociação inicial, que ambas as partes estão comprometidas com a resolução construtiva de eventuais desacordos

 A Diferença Entre Resolver e Ganhar

Há uma mentalidade que precisa de ser reequacionada nas negociações empresariais: a ideia de que resolver um conflito significa ganhar o conflito.

Numa relação de investimento que pode durar 5, 7, 10 anos, com decisões partilhadas, com capital conjunto em risco, com reputações entrelaçadas, "ganhar" o conflito a curto prazo frequentemente significa comprometer a parceria a longo prazo.

A mediação parte de uma premissa diferente: o objetivo não é decidir quem tem razão, mas encontrar uma solução que ambas as partes possam aceitar e que permita avançar. Isso pode significar que nenhuma das partes consegue tudo o que quer, mas ambas conseguem aquilo de que precisam.

É, no fundo, a mesma lógica da negociação integrativa que vimos noutros contextos: o foco não está na divisão do bolo, mas em como torná-lo maior.

Uma Nota Final: O Conflito Como Sinal

É tentador ver o conflito como falha, sinal de que a negociação inicial foi mal feita, ou de que a relação está em risco. Mas o conflito, gerido de forma construtiva, pode ser também um sinal de que as duas partes estão suficientemente envolvidas para não ficarem em silêncio quando algo não funciona.

As relações que nunca têm conflito não são necessariamente as mais saudáveis, podem ser as relações onde uma das partes foi silenciada. As relações onde o conflito é reconhecido, nomeado e gerido são, muitas vezes, as mais duradouras.

A mediação não é a admissão de que a relação falhou. É a ferramenta que permite que não falhe.